Matéria originalmente publicada nos dez anos da eliminação na Liga dos Campeões de 2005-06, revista e atualizada
Juan Román Riquelme é um dos maiores craques dos gramados sul-americanos e tinha total capacidade para repetir a dose em uma potência da Europa. Mas foi no nanico Villarreal que o meia deslumbrou, o que só lhe credencia ainda mais: liderado por ele, o Submarino Amarillo chegou às semifinais da Liga dos Campeões. Tivesse ganho o torneio sobre o Barcelona, contra quem o Villarreal estivera invicto entre 2003 e 2005 (incluindo um 3-0), seria um feito superior ao de Maradona ganhando a Copa da UEFA com o Napoli em 1989. Mas a aventura se encerrou nas semifinais justamente por um pênalti perdido por Román, contra o Arsenal. A revanche contra os londrinos tardou 15 anos, mas veio, também nas semifinais, na Liga Europa de 2020-21. Que, diante de outros ingleses, rendeu no continente um primeiro troféu de um clube ainda sem taças nacionais expressivas. Vale relembrar como argentinos foram fundamentais nas duas trajetórias.
O Villarreal, agora com 98 anos de história, era um clube praticamente restrito às peladas regionais da Comunidade Valenciana até os anos 90. Só disputou pela primeira vez a Copa do Rei em 1969. Em 1992, então, se promoveu à segunda divisão espanhola pela primeira vez e na temporada seguinte conseguiu seu melhor desempenho na Copa até então. Parou nas quartas-de-final. Só que derrotado por um 8-1 agregado com o Valencia. Logo ele, contra quem construiria a médio prazo o principal clássico valenciano, com a estagnação do Levante.
Foram justamente antigos acionistas do “rival” que emergiram o submarino. Fernando Roig, dono de uma das principais cerâmicas da Espanha, comprou o Villarreal em 1997 e imediatamente o clube se promoveu pela primeira vez à elite. Seu irmão Francisco deixaria em 1998 o Valencia, do qual era acionista majoritário. O armador Walter Gaitán, do Rosario Central, foi o primeiro argentino da nova era. Os novatos foram rebaixados, mas o retorno à elite foi imediato. E os negócios com o Boca Juniors de Carlos Bianchi se tornaram uma tendência. Gaitán foi vendido aos auriazuis em 2000. Já a via inversa seria muito mais percorrida.
O volante Diego Cagna foi importado ainda antes da vitoriosa Libertadores de 2000 para ficar duas temporadas. O argentino seguinte foi Rodolfo Arruabarrena, o lateral que teve sua noite de glória exatamente nas finais do torneio: foram dele os dois gols sobre o Palmeiras na Bombonera. El Vasco viria a ser o quarto homem com mais partidas pelo Villarreal e o estrangeiro que mais o defendeu. Foram sete anos, até 2007.
No fim daquele ano 2000, o Boca foi campeão mundial sobre o Real Madrid com dois gols de Martín Palermo antes dos cinco minutos de jogo. Bingo! O Titán foi a nova aquisição, anunciado junto com Gustavo Barros Schelotto, que havia marcado sobre o Villarreal em amistoso naquele mesmo ano acertado exatamente como parte da negociação por Arruabarrena. Os quatro ex-boquenses participaram do sétimo lugar na temporada 2000-01, um feito para um time que vivia a primeira divisão apenas pela segunda vez; nessa época, Iván Moreno y Fabianesi, ex-Rosario Central nascido na Espanha de mãe argentina e criado no país dela, jogou no time B.
O Barros Schelotto menos badalado logo voltou à Argentina (não se arrependendo: fez parte do Racing que em 2001 livrou o time de jejum nacional de 35 anos). Já Palermo quebrou a tíbia e a fíbula exatamente ao comemorar um gol: o peso da torcida desmoronou a grade onde se pendurava junto com o atacante, soterrado. Palermo não demonstrou a mesma forma ao se recuperar e foi repassado ao Real Betis em 2003. Paralelamente, o Barcelona emprestava Riquelme aos amarelos. O argentino era avaliado por Louis van Gaal como o melhor jogador do Barça quando possuía a bola, mas o pior sem ela.
El Torero respondeu as críticas com a primeira grande campanha continental do novo clube para além da Copa Intertoto. O time, que vinha de dois perigosos 15º lugares na Espanha, saltou para 8º e, sobretudo, foi às finais da Copa da UEFA da temporada 2003-04, eliminado pelo Valencia; o rival, também munido de argentinos, vivia o auge, vencendo na mesma temporada o Espanholzão. Além do maestro e de Arruabarrena, outro tripulante argentino do submarino era o zagueiro Fabricio Coloccini (emprestado pelo Milan e vendido em seguida ao Deportivo La Coruña, que ainda respirava o auge também). Para variar, outro formado pelos juvenis do Boca.
Em 2004, então, o Villarreal passou o rodo por mais hermanos. Sebastián Battaglia, para variar, era outro importado do Boca de Bianchi, mas o volante, ainda que titular na temporada, foi logo devolvido. Luciano Figueroa, recém-campeão olímpico, era um atacante frequente nas convocações também da seleção principal, mas também não se ambientaria – para aumentar chances de ir à Copa do Mundo (para o qual acabou mesmo de fora), buscou empréstimo ao River no início de 2006.
Já o zagueiro Gonzalo Rodríguez, produto do San Lorenzo, só sairia do Madrigal depois de oito anos – chegou a marcar um gol naqueles 3-0 sobre o Barcelona de Ronaldinho Gaúcho, em 2005. Outro que deu muito certo, ainda que por prazo menor, foi o lateral Juan Pablo Sorín, capitão da seleção argentina. Também chegou da Argentina o técnico chileno Manuel Pellegrini, iniciando sua trajetória europeia; El Ingeniero vinha de bons trabalhos por San Lorenzo e River. A comunidade sul-americana ainda teve outro promovido no futebol argentino, o uruguaio Diego Forlán.
Esse elenco alcançou o 3º lugar em La Liga, possibilitando a classificação para aquela Liga dos Campeões de 2005-06. Foi a melhor temporada europeia de Riquelme, autor de 15 gols no campeonato, até então. Três deles deram a vitória por 3-1 no clássico com o Valencia; naquela temporada, o campeão Barcelona levou simplesmente seis gols do submarino: o 3-0 no Madrigal, com gol de Rodríguez, e um 3-3 no Camp Nou no qual chegou a estar vencendo por 2-0.
Na temporada seguinte, Riquelme ainda anotou 12 no campeonato enquanto conduzia o submarino pelo continente, agora com mais argentinos: o goleiro eternamente reserva Mariano Barbosa (um ciclo entre 2005-07 e outro desde 2015), vindo do bom Banfield da época; e o meia-atacante Guillermo Franco, naturalizado mexicano e ex-comandado do técnico Pellegrini naquele vencedor San Lorenzo de 2001. Foi necessária uma fase preliminar com o Everton, batido com dois 2-1 com gols de Sorín e Figueroa. Na fase de grupos, os novatos terminaram líderes em chave com o Benfica e o Manchester United de Cristiano Ronaldo. Nas oitavas, Riquelme e Arruabarrena marcaram gols que derrubaram o Rangers; o lateral também marcou o gol da classificação sobre a Internazionale de Adriano.
Nas semifinais, o elenco deixou Highbury com derrota reversível de 1-0 para o Arsenal. No Madrigal, os britânicos seguravam o 0-0 até o último minuto, quando Riquelme desperdiçou o pênalti. O consolo viria em 7 de maio, no encerramento do campeonato espanhol. Foi um 3-3 contra o Real Madrid no Santiago Bernabéu, jogo que o Villarreal vencia até os 43 minutos do segundo tempo. Foi o último jogo oficial de Zinédine Zidane no futebol de clubes (estenderia a carreira por mais alguns jogos, na Copa do Mundo), e o francês fez questão de, ao fim da partida, trocar sua camisa pela de Riquelme.
O maestro ficou mais uma temporada, quando forçou retorno ao Boca. Arruabarrena também voltou à Argentina. Sorín já havia sido vendido ao futebol alemão, encerrando a tríade argentina titular. Os ex-Vélez Leandro Somoza (meia) e Fabricio Fuentes (zagueiro) apareceram a seguir; outro zagueiro, Leonardo Sigali, veio do Nueva Chicago mas foi seguidamente emprestado. Fuentes e Gonzalo Rodríguez foram os argentinos titulares da temporada em que o Villarreal foi vice-campeão espanhol, em 2007-08 (sendo eliminado na Copa da UEFA pelo futuro campeão Zenit). Até hoje, essa é a colocação mais alta do Submarino em La Liga.
O trabalho de Pellegrini e credenciaria para assumir o Real Madrid outra temporada depois, após um quinto lugar e nova eliminação para o Arsenal na Liga dos Campeões (desta vez, nas quartas-de-final). Na sequência, foram satisfatórios, além do longevo Gonzalo Rodríguez, o armador Ariel Ibagaza, titular entre 2008 e 2010 após sucessivos anos no futebol espanhol (com destaque na fase áurea de outro nanico, o Real Mallorca vice europeu de 1999: saiba mais); Mateo Musacchio, zagueiro importado do River em 2009, permaneceu no Madrigal até 2017, quando rumou à camisa mais pesada do Milan; e o atacante Luciano Vietto, de uma única temporada em 2014-15 vindo do Racing mas de desempenho que o transportou ao Atlético de Madrid – embora desde então não se firmasse em lado algum, incluindo o rival Valencia em 2018.
Damián Escudero (2008-10), Alejandro Martinuccio (2011-12), Gonzalo Castellani (idem), Fernando Cavenaghi (2012-13), Héctor Canteros (idem), Nahuel Leiva (2013-15), Marcos Mauro (idem), Leonardo Suárez (2014-20!), Agustín Doffo (2016-17), Cristian Espinoza (idem) por outro lado, mal tocaram na bola, enquanto Marco Ruben teve alguns altos (esteve na seleção em 2011 como jogador do clube), mas também o rebaixamento, em 2012. Apesar da queda, o Villarreal, que logo voltou, logo emendou campanhas razoáveis: dois 6º lugares seguidos nas duas primeiras temporadas após o retorno, incluindo as semifinais da Copa do Rei de 2014-15; o 4º lugar na de 2015-16 e três bronzes em La Liga nas cinco temporadas realizadas desde então.
Em meio a isso, chegaram também, em 2018, o zagueiro Ramiro Funes Mori (pré-convocado ao Mundial da Rússia ainda pelo Everton) e o meia Santiago Cáseres, importado do Vélez. Ambos foram titular, mas aquela temporada 2018-19 também seria a única temporada periclitante para os lados do Madrigal desde o regresso à elite; Cáseres passaria por dois empréstimos ao América do México e outro ao Vélez. Funes Mori, à esquerda na imagem que abre a matéria, firmou-se por um tempo. Embora reserva na histórica final contra o Manchester United, compôs a partir da atual temporada 2020-21 a panelinha pé-quente com outros dois nomes recorrentes da seleção que o acompanham na foto: o defensor Juan Foyth, emprestado pelo Tottenham Hotspur, e o goleirão Gerónimo Rulli, vendido pela Real Sociedad para converter o último chute do Villarreal virgem de títulos e na sequência encerrar essa história. Só a defesa argentina de um pênalti para amenizar o desperdício argentino 15 anos antes…
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