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Elementos em comum entre Corinthians e Huracán

Adversários hoje na Copa Sul-Americana, Huracán e Corinthians trocaram muitas figurinhas entre 2009 e 2010. Para adquirir a revelação Matías Defederico de um Globo quase campeão do Clausura 2009, o vencedor da Copa do Brasil de 2009 também agendou um amistoso, já em 2010, que serviu de despedida para o ídolo alvinegro Marcelinho Carioca. Mas existem outras similitudes entre o Parque São Jorge e o Parque de los Patricios.

Para começar, é preciso mesmo ir sem redundância aos inícios: quase o nome de ambos poderia ter origens semelhantes. Antes de decidir-se por homenagear o Corinthian inglês, os fundadores do Timão cogitaram a ideia do clube chamar-se Santos Dumont, para honrar o aviador, no auge do prestígio. Os hermanos também estavam fascinados pela inovadora conquista dos ares. Criado originalmente em 1904 e refundado em 1908, o Huracán (“Furacão”, em castelhano, em cognato ao inglês Hurricane) já se chamava assim antes do pai da aviação argentina, Jorge Newbery, causar sensação no próprio ano de 1908 ao cruzar por três países no balão El Huracán: contamos aqui.

A feliz coincidência fez os fundadores do clube até pediram autorização a Newbery para que o distintivo da equipe usasse um balão – Globo, em castelhano, daí o apelido do time. Newbery não apenas aceitou de modo protocolar como, figurativamente, “vestiu a camisa”: usou seu prestígio para auxiliar o Huracán a conseguir um primeiro terreno apto para a filiação oficial do clube na associação argentina de futebol. Jorge Newbery atualmente dá nome ao Aeroparque bastante empregado nas passagens São Paulo-Buenos Aires como alternativa ao aeroporto de Ezeiza, o principal da região metropolitana da capital argentina.

As duas torcidas viram a ser associadas de modo estereotipado a camadas populares – no caso argentino, o reduto huracanense no bairro portenho de Parque Patricios é visto como um bairro operário, mesmo que relativamente próximo do centro. Por abrigar muitos dos fornos crematórios que eliminavam o lixo da capital federal, Patricios foi apelidado de La Quema e os torcedores huracanenses, de quemeros. O que era xingamento gradualmente virou apelido orgulhosamente ostentado pelos adeptos do Globito. O uniforme dos dois times também se assemelhou ocasionalmente, sobretudo dos anos 30 aos 50, quando foi comum no Huracán que as camisas brancas com detalhes vermelhos fossem acompanhadas por calções pretos.

Os dois clubes puderam ser campeões da Argentina e do Paulistão, conforme o caso, em 1921 e em 1928 apenas. É que desde esse ano, o Huracán só venceu a primeira divisão em 1973, em meio ao famoso jejum corintiano. Jejum que acabou impregnado na identidade do Huracán, outrora “o sexto grande” de seu país. Desde então, duas de três voltas olímpicas quemeras coincidentes com as do Timão não poderiam ser mais díspares: se deram pelos títulos da segunda divisão argentina tanto em 1990, ano do primeiro Brasileirão corintiano, como em 2000, ano do primeiro Mundial da FIFA alvinegro. Em 2015, então, La Quema festejou a Supercopa Argentina sobre um River que venceria a Libertadores, ao passo que o Corinthians faturou novo Brasileirão.

À esquerda, Fleitas Solich, que foi técnico até do Real Madrid entre os trabalhos que fez por Huracán e Corinthians. Nas outras imagens, Marcos com um Rivellino sem bigode; e, no Huracán, com Brindisi (em pé) e Basile (agachado), único técnico de Maradona e Messi

Curiosamente, o primeiro rebaixamento de ambos se deu cinco após a primeira queda dos tradicionais rivais: o Palmeiras caíra em 2002 e o Corinthians, em 2007, ao passo que o descenso do Globo em 1986 ocorreu após o San Lorenzo sofrê-lo em 1981. Inclusive, dois dos elementos em comum nas duas torcidas, curiosamente, têm identidade muito mais precisamente como sanlorencistas – chegaremos lá.

O primeiro homem a ter trabalhado por Huracán e Corinthians foi paraguaio mesmo. Descendente de croatas, Manuel Fleitas Solich criara renome na Argentina ainda como jogador, no Boca dos anos 20. Chegara até a defender a própria seleção argentina, em jogo esquecido por cair naquilo que estatísticos sedentários vêm categorizando como “não-oficial”: um amistoso contra o Barcelona, em ocasião histórica por render a primeira vez em que a Albiceleste usou um brasão na camisa.

Em 1949, Fleitas Solich chamou nova atenção continental treinando um Paraguai que fez graça na Copa América: a Albirroja ousou vencer na rodada final o anfitrião Brasil e forçar um jogo-desempate. Mesmo que nele caísse por 7-0, o honroso vice-campeonato fez com que Fleitas Solich primeiramente fosse requisitado como bombeiro em um Huracán à deriva, à beira do rebaixamento: foi o treinador nas quatro rodadas finais e a queda, que parecia iminente, pôde ser evitada, ainda que em polêmicos jogos-desempate de arbitragem tendenciosa para cima do prejudicado Lanús, como contamos aqui.

De volta ao Paraguai, Fleitas Solich o treinou na Copa do Mundo de 1950 e enfim se deu em 1953 ao gostinho de vencer a Copa América, a primeira do país. Foi a credencial para iniciar longa carreira no Brasil. Associado sobretudo ao Flamengo, como comandante de tricampeonato carioca seguido, El Brujo calhou de comandar o Corinthians no início dos anos de jejum. Até dirigiu um SCCP campeão, mas igualmente em torneio esquecido como amistoso, a Taça São Paulo em 1962 – competição com times de todas as divisões paulistas e obtida em uma final contra um elenco misto do Santos. Já no Paulistão propriamente dito, ficou-se no vice, onze pontos atrás do mesmo Santos. Saiu após ser derrotado pelos praianos no Rio-São Paulo do ano seguinte.

O segundo a jogar pelos dois foi brasileiro: Marcos Pereira Martins, mais conhecido só pelo primeiro nome, havia defendido até a seleção entre 1963 e 1965 pelos desempenhos promissores que o ponta-direita teve no Parque São Jorge. Viera em 1962 do Jabaquara e, a bem da verdade, pôde-se dizer campeão, no Rio-São Paulo de 1966. Mas o troféu, além de dividido com outros três times, tinha relevância inferior a um estadual que insistia em escapar. Marcos gradualmente foi perdendo terreno, com passagens por Portuguesa Santista e Bangu antes de aterrissar na Argentina – inicialmente, no Newell’s, em 1970.

O goleiro Buttice (à esquerda, em um Huracán de uniforme quase corintiano) e o meia Veira, ambos curiosamente ídolos no San Lorenzo, tradicional rival huracanense

No rojinegro, Marcos integrou um elenco vistoso em 1971, em campanha ofuscada pela eliminação nas semifinais do Torneio Nacional justamente para o arquirrival Rosario Central, que ainda por cima foi campeão (precisamente no primeiro título do interior argentino na competição). Acabou requisitado para reforçar em 1972 um Huracán que germinava um timaço… e que também calhou de ser ofuscado por um rival ainda melhor. Já treinado por César Menotti, o Globo foi 3º colocado no Torneio Metropolitano. Até foi titular ao longo da temporada, mas golzinho mesmo, marcou somente um, em recordado 5-1 para cima do Estudiantes no Torneio Nacional. Para 1973, quando o título argentino enfim coroou a equipe de Menotti, Marcos já estava repatriado pelo Santos e muito bem substituído no Globo pela revelação René Houseman.

Em paralelo à carreira corintiana de Marcos anos anos 60, o goleiro Carlos Buttice e o meia-esquerda Héctor Veira construíam as suas na Argentina. Revelado no modesto Los Andes, El Batman Buttice chegou em 1965 ao Huracán. Foi sua única temporada ali: o time ficou só em 12º de uma edição com dezoito times da 1ª divisão argentina, com o detalhe de ter a segunda pior defesa, levando 54 gols – o lanterna Chacarita sofreu um a menos.

Mas essas estatísticas pareceriam piores sem Buttice, pois ele acabou comprado justamente pelo San Lorenzo para 1966, a ponto até do Diccionario Azulgrana (publicado em 2008) tirar uma casquinha: “o destino lhe tinha guardado uma carta vencedora. Porque se sabe, não é a mesma coisa representar a instituição [do bairro de] de Parque Patricios que fazê-lo no San Lorenzo. Esse foi seu desafio: vestir a camisa de uma equipe grande e brigar por coisas à altura da magnitude do clube”. Ele consagrou-se em 1968 como arqueiro do primeiro elenco campeão de modo invicto no campeonato argentino profissional, chegando a defender esporadicamente a seleção. Apesar do êxito nos gramados, o San Lorenzo não passava pela melhor fase financeira e Buttice optou por vir ao Brasil em 1969, inicialmente em um America ainda respeitado no Rio.

Após brilhar pelo Bahia seguidamente campeão estadual, chegou em 1974 ao Corinthians; o Timão já havia usado diversos jogadores estrangeiros, mas todos já crescidos no Brasil. Embora já jogasse no país, o argentino teria sido o primeiro realmente “importado” pelo “clube mais brasileiro”. Ele não comprometeu, mas acabou involuntariamente marcado pelo traumático vice-campeonato paulista daquele ano. Em 1975, já voltava a seguir carreira na terra natal. Em 1987, deu-se ao gosto de ser carrasco do ex-colega Rivellino na final da Copa Pelé, mundial de veteranos bastante evidenciado na época.  Já contamos aqui sobre a carreira de Buttice.

Buttice fora campeão com o San Lorenzo em 1968 juntamente com El Bambino Veira, já em precoce decadência de carreira de quem havia sido quatro anos antes o mais jovem artilheiro do campeonato argentino profissional até então. Veira era daqueles camisas 10 talentosos, mas pouco afeitos ao autocuidado para o alto rendimento: “muitas vezes ia do motel ao treino” chegou a ser o título da entrevista que dera em 2013 à El Gráfico. A boemia cobrou o preço com boas atuações cada vez mais irregulares a ponto de, quando o time encerrou naquele 1968 um jejum de nove anos, Veira já ser um 12º jogador. Já contamos aqui sobre a carreira dele.

Azul é uma tradicional cor reserva no Huracán, como nessas fotos com Defederico: à esquerda, no agridoce 2009 e, à direita, como adversário no amistoso de 2010

Em 1970, deixou pelos fundos o Gasómetro para andar as poucas quadras que separavam o Sanloré do vizinho, uma certa volta à casa: ele havia crescido em Parque de los Patricios e na época escancarava que sempre havia torcido pelo Huracán, algo tolerado em tempos mais sadios (“eu metia o gol do San Lorenzo no clássico e à noite ia jogar bilhar na sede do Huracán. Na mesma noite do jogo! E não acontecia nada”, contextualizou). Veira, que conviveu com Marcos, conseguiu dar mostras de sua qualidade, com média de meio gol por partida nas duas temporadas em que foi huracanense. Mas, como o brasileiro, calhou de sair justamente logo antes da redenção de 1973… ano em que voltava a ser azulgrana.

A partir dos anos 80, colecionou diferentes passagens pelo rival a ponto de, na entrevista de 2013, desconversar: dizia que ele e amigos de rua, na juventude, “nos juntávamos para ver o Huracán e o San Lorenzo quando jogavam de mandantes, um domingo cada um, porque não havia grana para viajar. Não estávamos tão definidos”. Em 1976, vindo da Concacaf, ele chegou ao Corinthians após Vicente Matheus atravessar uma negociação que Veira fazia com o Palmeiras. O filme se repetiu: Veira ficou na pauliceia até 1977, mas saiu ainda antes da campanha da redenção estadual começar. “Era bravo o campeonato paulista”, assumiu na mesma entrevista de 2013, onde complementou: “meu futebol era para o Rio, não para São Paulo”.

Veira viraria um técnico promissor nos anos 80. Treinou o primeiro River campeão da Libertadores e do Mundial, em 1986, além de profissionalizar Caniggia. Levou um San Lorenzo sem casa própria à semifinal da Libertadores em 1988, o mais perto que o título estivera do clube do Papa até 2014. Estava fazendo um bom trabalho no Vélez quando, como Cuca, viu-se envolto a uma denúncia de estupro de menor. Sempre jurou inocência, mas enquanto o brasileiro livrou-se da condenação embora recentemente começasse a ser rechaçado por times que não sejam os At(h)léticos, El Bambino realmente passou anos preso. Só que teve abertas as portas de diversos lugares ao terminar de cumprir a pena: tirou em 1995 o San Lorenzo de um jejum de 21 anos, comandou um Boca maradoniano e de bom futebol em 1997, apareceu na seleção boliviana em 1999… e até integrou a lista de cem maiores ídolos do Huracán na enciclopédia que o Clarín preparou para o centenário quemero, apesar de identificação total com o vizinho.

E então vieram os capítulos recentes mencionados na introdução. A contratação de Defederico, personagem da imagem que abre essa matéria, empolgou o Parque São Jorge, que esperava alguém tratado como “novo Messi”. Vale dizer que naquele tempo Lionel ainda não era o ET capaz de duzentos gols por temporada e trezentas assistências ao ano, mas já se coroava o melhor do mundo pela primeira vez. Defe pudera estrear pela seleção argentina no embalo de uma superlativa dupla de volantes-armadores com Mario Bolatti por um Huracán que esteve a seis minutos do título no Clausura. A tremenda comparação e uma escalação equivocada como atacante – e com Ronaldo do lado – foram a receita para um fracasso anunciado.

O Huracán “quase corintiano” de 1939, cheio de gente que venceu o Timão naquele ano. O primeiro em pé é Giúdice, técnico campeão das Libertadores de 1964 e 1965. De azul, o ex-artilheiro Stábile como treinador. Baldonedo é o penúltimo agachado

Conviver com o Fenômeno e integrar um time já classificado à Libertadores para 2010 como recém-campeão da Copa do Brasil foram os grandes motivos para que Defederico viesse o Brasil enquanto Bolatti e o principal craque daquele Huracán, Javier Pastore, iam ao futebol italiano. Enquanto eles dois mantinham o hype por mais tempo e conseguiam ir à Copa do Mundo de 2010 por Fiorentina e Palermo, o corintiano nunca se aclimatou. Até pôde defender em 2011, sob empréstimo, um Independiente recém-campeão da Sul-Americana e, pelo Rojo, voltar a ser convocado (embora já sem jogar), mas já não foi o mesmo. Nem sua volta ao Huracán em 2013 terminou exitosa, deixando-o após a perda do acesso justamente para o Independiente no mata-mata final que valia a vaga na primeira divisão. Apesar do fiasco com a Fiel, guardou carinho: chegou a se referir ao “meu querido Timão” em 2018, ao se encantar com a camisa corintiana inspirada em Ayrton Senna.

Corinthians e Huracán se enfrentaram quatro vezes e o saldo é levemente a favor do Timão. Em 13 de julho 1930, na Fazendinha, os brasileiros venceram por 4-2 um Huracán que excursionava por São Paulo e que pudera acompanhar com surpresa a festa paulistana pela eliminação brasileira (formada somente por inscritos no futebol carioca em tempos inflamados da rivalidade Rio-São Paulo) na primeira fase da Copa do Mundo. Em 15 de fevereiro de 1936, o Globo esteve de passagem como pré-temporada e ficou no 1-1 na Mooca.

A única vitória argentina veio em 29 de janeiro de 1939, em pré-temporada que deu mostras do Huracán que encantaria o país no restante do ano. Mesmo na Fazendinha, venceu por 4-3 com direito a dois gols de Emilio Baldonedo, até hoje o jogador que mais fez gols na seleção brasileira. Treinado pelo artilheiro da primeira Copa do Mundo (Guillermo Stábile), o Globo liderou a maior parte do campeonato daquele ano, quando se tornou o primeiro time a vencer “os cinco grandes” em um mesmo turno, embora perdesse fôlego na reta final e ficasse no vice.

Em 13 de fevereiro de 2010, então, ocorreu no Pacaembu o encontro seguinte, ainda o último. Souza, Morais e Dentinho marcaram os gols sobre um Huracán cuja escalação não era mais nem a sombra do elenco ainda recordado de 2009. Por fim, em 2017 traçamos semelhanças com o Corinthians campeão daquele ano com o Huracán de 1973: ambas as campanhas ficaram especialmente empolgantes pelo vistoso primeiro turno acumular uma gordura que permitiu a taça se encaminhar mesmo com percalços no segundo. Para entender melhor, vale conferir aqui a trajetória daquele último título argentino do Globito, já que a taça ressoou até na Copa do Mundo de 1978.

Para 2025, o Huracán buscou junto ao Junior de Barranquilla o empréstimo do volante colombiano Víctor Cantillo, que calhara de passar três temporadas (2020 a 2023) permeadas pelo jejum só encerrado recentemente. Como alvinegro, pôde tanto estrear pela seleção adulta da sua Colômbia como também acabando por desaparecer das convocações conforme perdia espaço nos próprios alvinegros. A ver se haverá cumprimento da “lei do ex”!

Amistoso de 2010 marcou a despedida de Marcelinho Carioca
Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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