Divulgamos a curiosidade há um ano (aqui), quando o Independiente caiu pela primeira vez. Em 2013, o também tradicionalíssimo Argentinos Jrs, que revelou Maradona, passou muito perto de ir junto. Não aguentou mais uma temporada. Suas últimas chances de seguir na elite na temporada 2014-15 se esvaíram de vez na combinação da derrota em casa para o líder Gimnasia LP no sábado com o 1-1 que o Olimpo, concorrente no rebaixamento, arrancou de outro candidato ao título, o River. Para continuar, o Argentinos tinha que vencer todos os jogos restantes e o Olimpo, perdê-los.
O Independiente caiu sob Miguel Ángel Brindisi, mesmo treinador do último momento consistentemente bom do clube, em 1994-95; ele venceu o penúltimo título argentino do clube, uma Supercopa e uma Recopa. O River caiu em 2011, quando era treinado por Juan José López, sete vezes campeão nacional ali como meio-campista. O Racing, em 1983 com o mesmo técnico com quem vencera suas únicas Libertadores e Intercontinental (a primeira de um time argentino), em 1967: Juan José Pizzuti.
O trio acima foi rebaixado quando já vigorava o polêmico sistema de promedios, ironicamente feito justamente para proteger os grandes. É usado desde 1983, após o primeiro rebaixamento de um grande, o do San Lorenzo em 1981, ano em que foi treinado pelo ex-meia Victorio Cocco e por Juan Carlos Lorenzo, técnico de Cocco no elenco de 1972, o primeiro a vencer no mesmo ano os dois torneios argentinos. O sistema leva em conta os pontos da temporada corrente com as das duas anteriores (na época do Racing, rebaixado justo em 1983, ainda era só com a imediatamente anterior).
Considerando as tais temporadas anteriores, daria para incluir ainda Rogelio Domínguez no Racing, ídolo nele como goleiro nos anos 50; no River, os ex-meias Néstor Gorosito, do time campeão nacional, da Libertadores e mundial de 1986, e Leonardo Astrada, jogador mais vezes campeão no Millo (dez argentinos, um recorde no país, a Libertadores 1996 e a Supercopa 1997); e, no Independiente, Daniel Garnero, meia-armador daquele time de 1994-95, o defensor Cristian Díaz, também de 1995, e o Américo Gallego, treinador do último título nacional rojo, em 2002.
O Argentinos Jrs revelou Maradona e já venceu uma Libertadores (antes até do River). Mas é um time de alcance nacional muito menor que o quarteto acima, que com o Boca, hoje o único que ainda não caiu, forma os chamados “cinco grandes” do país. E, mesmo tendo Dieguito para chamar de seu, a rigor não há ninguém que personifique as poucas e boas glórias do clube do bairro de La Paternal como Claudio Borghi. Simplesmente todas as taças expressivas vieram com ele presente.
Maradona revolucionou o nanico Argentinos, mas jamais pôde ser campeão com ele. O time só tinha alguns títulos de segunda divisão. O salto veio no biênio 1984-85. Foi campeão da elite pela primeira vez e emendou com um bicampeonato seguido. Ainda em 1985, venceu a Libertadores e deu muito trabalho à Juventus de Platini na Intercontinental. O Bicho, apelido do clube, era regido pelo Bichi, apelido de Borghi, meia-armador do plantel. Borghi foi justamente um dos primeiros chamados de “novo Maradona”. Suas atuações o colocaram ao lado do “original” na vitoriosa Copa 1986.
El Bichi Borghi começou titular na Copa do Mundo e terminou campeão, mas já na reserva. Chegou a ser comprado pelo Milan em 1987 ainda assim, mas jamais foi o mesmo, fracassando também no River e no Flamengo. Voltou a ter sucesso como técnico: foi quatro vezes campeão no Chile (todas no Colo Colo), onde parara de jogar. Voltou ao Argentinos Jrs em 2009 e, agora na nova função, levantou o terceiro e último título nacional do Bicho, em 2010. E, novamente, não se saiu bem depois.
Borghi foi treinar o Boca após a taça. Fracassou assim como no regresso ao Chile, onde sucedeu o compatriota Marcelo Bielsa na seleção de lá. Mas, com um rebaixamento praticamente certo, os dirigentes de La Paternal só poderiam amenizar a pressão da torcida com o principal santo da casa. A receita que já não funcionara com quatro clubes muito maiores não resultou em milagre.
O ex-meia não escapou de cornetadas, mas a compreensão de que não havia muito o que pudesse fazer com o elenco pobre que tinha consigo foi maior. No sábado em que o Argentinos Jrs foi rebaixado pela quarta vez na história, ainda havia bandeira com os dizeres “Gracias Bichi” e aplausos foram escutados assim como o antigo grito de “Bichi! Bichi!” nas arquibancadas de La Paternal.
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