O San Lorenzo não celebra hoje só a manutenção de sua liderança na reta final do campeonato, garantida após o Newell’s perder ontem. Há exatos 80 anos, com um brasileiro protagonista, o Ciclón foi campeão profissional pela primeira vez.
O profissionalismo já vinha sendo praticado por baixo dos panos havia anos, mas a Associação Argentina continuava a pregar o amadorismo e repartição igualitária entre os clubes sobre as rendas que geravam. Descontentes, aqueles que angarivam mais plata, não à toa os que cativaram mais popularidade, rebelaram-se e fundaram sua própria liga em 1931. Oficialmente, o campeonato argentino continuou sendo o amador da Associação até 1934 (ano em que a seleção só enviou amadores à Copa do Mundo), quando ela “se rendeu”. O San Lorenzo estava entre os fundadores da liga profissional.
Os outros fundadores foram Boca, River, Racing e Independiente (os outros dos “cinco grandes”), o rival Huracán e ainda Argentinos Jrs, Atlanta, Chacarita, Estudiantes, Ferro Carril Oeste, Gimnasia LP, Lanús, Platense, Quilmes, Tigre, Vélez e o sumido Talleres da cidade de Remedios de Escalada (não o de Córdoba). A sensação de rompimento foi tanta que até hoje a maioria da imprensa e público argentinos, equivocadamente, só contabilizam as taças pós-1931, minimizando o rico passado amador.
O Sanloré vinha de uma boa década anterior, onde foi três vezes campeão entre 1923 e 1927. 1930 viu a saída da maior parte dos remanescentes dos anos 20, como o ponta Alfredo Carricaberry, medalha de prata nas Olimpíadas de 1928 com a seleção e na época o homem com mais jogos (299) e gols (100) pelo clube; o atacante Juan Maglio e o volante Luis Monti, que foram à Juventus (também prata olímpico em 1928, Monti foi vice mundial pela Argentina em 1930 e campeão pela Itália em 1934: só ele jogou finais de Copa por países diferentes); o zagueiro Pedro Omar, de onze anos no CASLA.
Dos que remanesciam, o ponta-esquerda Arturo Arrieta havia chegado justo em 1927, onde jogou só 4 vezes na campanha campeã. Já em 1933, foi um dos protagonistas, especialmente por gols contra os grandes: Boca, River, Racing e no clássico contra o Huracán – só lhe faltou vazar o Independiente. Foi o primeiro a superar Carricaberry em jogos (303). Ainda mais significativo foi seu companheiro de ataque, Diego García. Ironicamente, tentara jogar no Huracán antes de passar quinze anos jogando no CASLA, entre 1925 e 1940, e outros treinando os cuervos (foi o técnico dos campeões argentinos de 1946).
García por sua vez foi o primeiro a superar Carricaberry em gols: fez 164, incluindo o primeiro profissional e o do título de 1933. No outro lado da escalação, no gol, Jaime Lema jogava desde 1926. Compensava a baixíssima estatura para a posição (1,69m) com flexibilidade e agilidade para diminuir espaços dos atacantes. Mais havia alguém ainda mais longevo: o defensor José Fossa, desde 1919 defendendo o clube. Natural que fosse o capitão em 1933.
Fossa pararia de jogar um ano depois para logo ser técnico sanlorencista, onde uma de suas declarações de princípios segue atual: “o forward deve driblar. (…) Agora, o drible tem que ser um recurso e não um entretenimento. O que quer divertir-se driblando, que volte à praça”. Somando-se seus quatro títulos a extintas Copas da era amadora, o caudilho Fossa é o jogador mais vezes campeão no San Lorenzo. Em 1933, fez dupla defensiva com o cordobês Félix Pacheco, que era um marcador áspero.
Genaro Canteli e Gabriel Magán vieram em 1932 do Gimnasia y Esgrima de Santa Fe, onde eram conhecidos como Los Pistoleros. Embora Canteli fosse o centroavante e Magán um jogador da ponta-direita, este foi de cara o artilheiro do time, com 24 gols. O clube foi vice naquele ano anterior. “Tivemos a sorte de formar uma muchachada alegre, divertida, mas ao mesmo tempo responsável. (…) Daquele plantel, nasceu uma amizade que durou toda a vida”, declararia Magán já nos anos 70. Em 1933, fez outros 24 gols e foi de novo o artilheiro do time.
Se Magán foi o artilheiro, um dos novatos de 1933 marcou 15 vezes nos 19 jogos em que atuou, incluindo contra Boca, River, Independiente e Huracán: o brasileiro Petronilho de Brito, o inventor do chute de bicicleta Segundo o próprio Leônidas da Silva. “Petronilo Do Britos” para os argentinos, também foi apelidado de Diamante Negro e era irmão de Valdemar de Brito, descobridor de Pelé (os irmãos jogariam juntos no CASLA em 1935). Havia jogado na seleção brasileira pelo extinto Independência e pelo Sírio, atualmente um clube focado no basquete e com futebol desativado. Petronilho veio na esteira de uma tentativa de colônia brasileira. Ou, para ser mais exata, uma colônia paulista.
O bairro de Boedo importou também o volante Eugênio Vanni (ex-Santos, mas outro vindo do Sírio), o goleiro corintiano Tuffy (que defendera o Brasil na Copa América de 1925) e ainda João Ramon e Agostinho Teixeira, respectivamente da Portuguesa e do extinto Estrela de Ouro. Mas somente Petronilho vingou: Vanni e Tuffy acabaram limitados a amistosos de pré-temporada e ao campeonato de times B; os outros dois até figuraram nas estatísticas do título, tendo os nomes inclusive “nacionalizados” na imprensa argentina para Juan Ramón e Agustín Teixeira, mas somaram juntos apenas três aparições. Ainda assim, a colônia parece ter seduzido um futuro torcedor ilustre que morava na Argentina dado o exílio do pai, general derrotado na Revolução Constitucionalista de 1932.
Fato é que a edição especial que a revista El Gráfico dedicou ao título sanlorencista na segunda divisão de 1982 reservou espaço para descrever, sobre o então ditador do Brasil, que “devoção é o que tem pelas cores azulgranas o atual presidente do Brasil, João Baptista Figueiredo. A história nasceu quando o primeiro magistrado viveu em Buenos Aires e foi deslumbrado pelo primeiro título profissional do San Lorenzo, em 1933. O seguia a todas as partes e, quando já como presidente chegou à Argentina em 1980, recordou emocionado: ‘é um momento muito especial para mim, me sinto garoto outra vez graças ao San Lorenzo’. Seu comentário, ao inteirar-se do acesso, foi também emotivo: ‘nem tudo no mundo é crise econômica. Hoje é um dia feliz'”.
O ataque Magán-Petronilho-Canteli-García-Arrieta que tanto teria encantado João Figueiredo seria apelidado de Los Gauchos (pela origem santafesina de Magán e Canteli) de Boedo. A fase foi tão boa que outro ídolo histórico do clube, Ricardo Alarcón, que debutara naquele mesmo ano, só foi se firmar a partir de 1935, quando Petronilho saiu. Outro que chegou em 1933 foi Alberto Chividini, que também veio de Santa Fe como Magán e Canteli, mas do Unión. Jogara a Copa de 1930 e compôs o meio-de-campo com Mario Scavone e o paraguaio Cipriano Achinelli, recém-chegado do Atlanta. O treinador era Atilio Giuliano.
Ex-jogador medíocre do clube, Giuliano permaneceu como um faz-tudo: carregava águas, era massagista, preparador físico, pintava as linhas de cal do estádio Gasómetro e de 1927 a 1934 foi o técnico do futebol. Giuliano viveu 38 anos no San Lorenzo, de 1923 a 1961. O curioso é que o início do campeonato não dava mostras de que o título seria azulgrana: o clube só ficou no 1-1 em casa com o Lanús na 1ª rodada e, na segunda, levou de 7-1 do River. Foram quatro empates nas primeiras dez rodadas. Mas já nelas resultados expressivos vieram, como um 2-1 fora de casa no Huracán e um 6-1 no Estudiantes (com dois de Petronilho).
Da 12ª rodada à 19ª, então, os cuervos ficaram invictos, vencendo seis vezes, incluindo 2-0 no River e no Independiente e um emocionante 4-3 no Talleres de Escalada. A arrancada foi freada com derrotas seguidas para Racing (2-0) e Huracán (4-1) nas duas rodadas posteriores. Mas logo retomada: nas nove que restavam, foram nada menos que oito vitórias, algumas com goleada: 5-2 no Tigre, 5-1 no Ferro Carril Oeste e a mais emblemática: nada menos que 7-1 no Gimnasia LP. Foi pela 28ª rodada. O clube platense tinha o vice-artilheiro do campeonato (Arturo Naón), um dos futuros maiores ídolos do River como jogador e técnico (José María Minella) e o futuro maior artilheiro estrangeiro da história do Palmeiras (Juan Echevarrieta) e dividia a liderança com o Boca, ambos 1 ponto à frente do Sanloré. Petronilho abriu o placar, Minella logo empatou.
O brasileiro marcou o segundo aos 6 do segundo tempo e García ampliou aos 20. Inconformado com um suposto erro de arbitragem no gol dele e com a expulsão de Miguens (que teria chutado o juiz), o Gimnasia ficou imóvel e passou a só devolver a bola. O árbitro teve que encerrar a partida 16 minutos depois após um caminhão de gols sanlorencistas (outros três de García e um de Magán) demonstrar a falta de seriedade que a partida virou. Apesar da grande arrancada na reta final, o San Lorenzo ainda pagava pelo início errático ao chegar à última rodada, pois não dependia só de si. O Gimnasia já não ameaçava (ficou em 5º), mas o Boca seguia firme na dianteira, ainda por 1 ponto. Mas a sorte ajudou: os cuervos teriam pela frente o Chacarita, enquanto o concorrente jogaria contra o… River. O
River terminou em 4º, mas já não tinha chances de título. Ainda assim, era de se supor que não aliviaria contra o arquirrival, ainda mais diante da possibilidade de vê-lo campeão no estádio riverplatense, onde o Superclásico ocorreria. E assim foi. O River ganhou por 3-1, enquanto o San Lorenzo, também fora de casa, soube vencer por 1-0 com o mencionado gol de García aos 20 do primeiro tempo, revertendo na última rodada a vantagem boquense. A revolta auriazul foi tamanha que trinta anos depois o episódio de 1933 foi o tempero extra para que o Boca, sem chances de título, devolvesse o desfavor para cima do River, que concorria contra o Independiente. Anedota que contaremos em poucos dias…
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